Escapando

domingo, 29 de junho de 2008

Enrolaste um novelo de ilusão à almofada em que todas as noites a tua desordenada, desolada cabeça se pousa. Com ele, vais fiando teu tão terno palácio de ouro, palco onde baila lacrimejando a dor que te consome. Roda, rodopia num tumulto inquieto, arrastando-te em devaneios incertos cuja condição única é ceder-te um nicho quente onde te possas abrigar.
Guardaste o infame mundo lá fora, como que não fazendo parte de ti, pois dele esperas somente que te presenteie com uma qualquer mácula sobre a qual sonhar. Observa-lo sagazmente, de pernas vergadas, imóvel e expectante algures onde ninguém te possa sentir, reduzindo a vida e seus enleios a meras minas de quimeras a forjar. Somente aí, no teu refúgio dourado pleno de espaço para falhanços, o externo espectro pode transfigurar-se numa destemida e vívida alma sedenta de actividade. Assim teces tuas tramas vãs, ansiando sentir sonhando a vida que corre, escapando.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

I sense your tears falling
Even when you cover up your face
And while longing for an embrace
Your mouth goes on smiling

If I was your chasing shade
I’d be the ground that’d never fade
The drops those eyes silently draw
I’d willingly soak up them all!

If only…




Momentos de cor

domingo, 25 de maio de 2008

Deixa gotas cinzentas tombar
Dos ponteiros do relógio
Um, dois, infinitos Tic-Tacs do inevitável
Oh tempo, zombo de ti.
Como poderias apagar tamanha cor?

Estação de serviço

segunda-feira, 28 de abril de 2008


segunda-feira, 21 de abril de 2008

A cada olá trocado, um aceno frio; a cada olhar cruzado, um subtil desvio; a cada momento, um único pensamento:
Se o tempo congelasse
E nada deixasse traço
Afundava-te num abraço
Pintado de carinho.
Coração que aguentasse
E talvez me arriscasse
A segredar-te um beijinho.

Vento de desgraça

domingo, 20 de abril de 2008

A forte ventania de uma desgraça anunciada passa, eu permaneço firme sem vergar ou sem sequer tremer. Como se já visse a derrota como normal, esperando-a ao virar de cada esquina... Sem esperança, não há sonho por destruir. Eu já nada espero, logo coisa alguma pode destruir-me.

Como gostava... de voltar a ser frágil...

Torre de vigia

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Coloco-me na penumbra da mais estreita ameia, esperando que detenha todas as setas que me possam ferir. Ouço marchar o exército, está para chegar a batalha de hoje. Encolho-me num calafrio, toda eu coberta pela velha e húmida pedra austera. Sons difusos e sombras imaginárias do que está prestes a surgir paralisam-me todos os músculos, mas não cessa um de pulsar insanamente, gritando o medo que eu tanto desejo enclausurar comigo, na minha frígida e solitária muralha.
Vislumbro fugidia o horizonte, adivinhando com temor o perigo que aí vem. Os passos marcam meus compassos:

Tum.

Tum.

Tum-tum.

Apareces (desabam as muralhas…), lanças num olhar a fatal seta (…sou atingida em cheio…) e segues o teu caminho para casa, indiferente ao que desencadeaste em mim (…ou em vazio).

Não há tempo para deixar sangrar. Qual fado de Prometeu, amanhã a batalha repetir-se-á e eu… eu estarei protegida, encolhida na penumbra da minha torre de vigia (estarei?).

 
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